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Sonhos de um financista

À frente da área de Finanças de uma gigante da bolsa, que se prepara para investir mais R$ 70 bilhões em Capex nos próximos anos, Daniel Szlak, CFO da Sabesp, não apenas testemunha como também protagoniza uma das maiores transformações do setor de saneamento do Brasil.

Szlak mergulha no desafio de ajudar a universalizar o serviço em São Paulo e expandir a atuação da companhia. “Temos espaço para crescer e a oportunidade de oferecer nossos serviços para outros estados”, disse o executivo em entrevista exclusiva à Assetz.

Para chegar ao posto de CFO da Sabesp em um momento tão decisivo, Szlak conta com uma história de ascensão profissional meteórica. Ele assumiu a cadeira de diretoria financeira pela primeira vez com apenas 26 anos, quando passou a liderar as Finanças da Kraft Heinz nos Estados Unidos, logo após a fusão das duas gigantes do setor de alimentos. Em seguida, ocupou o mesmo cargo na ComBio, empresa brasileira de energia térmica renovável.

Agora, na Sabesp, será responsável por estruturar os investimentos para universalização dos serviços de saneamento previstos no processo de desestatização. Para isso, a companhia terá que captar muito dinheiro no mercado. “Provavelmente, precisaremos usar todos os instrumentos possíveis de financiamento”, avaliou. Nesse contexto, seu papel será fulcral.

Mas as ambições do CFO vão muito além dos aspectos técnicos dessas operações financeiras. “Meu sonho, aquilo que me despertaria a sensação de missão cumprida, é ver a incidência de doenças relacionadas à falta de saneamento dentro da nossa área de concessão cair vertiginosamente. Isso significaria uma melhora na saúde e na qualidade de vida da população, que resultaria em um impacto positivo na produtividade e no desenvolvimento econômico. E para conquistar isso, precisaremos gerar muitos empregos, diretos e indiretos.” afirmou.

Leia a entrevista na íntegra.

Assetz: Você participará ativamente desse momento histórico da maior empresa de saneamento do país. Inclusive, falou em fazer “cinquenta anos em cinco”. Quais oportunidades você visualiza para sua carreira na condução desse processo?

Daniel Szlak: É a primeira vez que estou à frente do financeiro de uma empresa que tem o capital aberto na sua totalidade. Isso já é uma experiência superlegal para mim. Eu tive algum contato com o setor de RI [Relações com Investidores] na Kraft-Heinz e na ComBio, mas do jeito que será aqui, na Sabesp, é a primeira vez. É uma oportunidade muito grande.

Para executar os R$ 70 bilhões em investimentos planejados, será preciso captar muito dinheiro. A universalização do serviço de saneamento demanda a participação de todos os empreiteiros e construtoras, além do suporte dos bancos. Provavelmente, precisaremos usar todos os instrumentos possíveis de financiamento.

Ao mesmo tempo, estamos conduzindo um processo de melhoria de eficiência da companhia.

 

Assetz: E como a Sabesp tende a se beneficiar dessa fase de vultuosos investimentos?

Szlak: O setor de saneamento demanda altos investimentos — fala-se em cerca de R$ 1 trilhão para entregar a universalização do serviço em todo o país. Nossa meta é investir R$ 70 bilhões, uma base muito melhor. Os índices de universalização aqui em São Paulo já são muito bons, mas temos espaço para crescer e a oportunidade de oferecer nossos serviços para outros estados.

Em termos de valor de mercado, a Sabesp já é a terceira maior companhia de saneamento do mundo, considerando apenas o fornecimento de água. E eu espero que a companhia seja ainda maior.

Ao longo do caminho, nossos colaboradores — tanto os que estão chegando nessa nova fase da empresa, como aqueles que já estavam aqui antes — terão oportunidades únicas de crescer, de fazer algo novo. Para mim, essa é a principal realização, junto com entregar o melhor retorno possível para o acionista e um serviço que ofereça qualidade de vida para a população. E, depois, poder fazer o mesmo em mais lugares. No fim do dia, esses são os meus principais objetivos.

 

Assetz: Como o business da Sabesp te aproxima da satisfação pessoal e profissional?

Szlak: A Sabesp leva saúde e dignidade para a sociedade. Fornecemos um serviço essencial, e a população confia que, quando abrir uma torneira, a Sabesp estará lá, provendo água — isso não é garantido em muitos lugares no Brasil.

Para cada real investido em saneamento, o país economiza R$ 5,00 em saúde. Meu sonho, aquilo que me despertaria a sensação de missão cumprida, é ver a incidência de doenças relacionadas à falta de saneamento dentro da nossa área de concessão cair vertiginosamente.

Isso significaria uma melhora na saúde e na qualidade de vida da população, que resultaria em um impacto positivo na produtividade e no desenvolvimento econômico. E, para conquistar isso, precisaremos gerar muitos empregos, diretos e indiretos.

 

Assetz: Você deu um salto profissional, tornando-se CFO com apenas 26 anos. Você atribui essa rápida ascensão mais às suas qualidades técnicas ou às soft skills?

Szlak: No início da carreira, as habilidades técnicas têm um peso maior. Porém, quanto mais sênior você se torna, mais as habilidades comportamentais ganham relevância. Em diversas ocasiões, ao avaliar gerentes e gerentes seniores, observei que determinada pessoa era tecnicamente ótima, mas, se quisesse continuar crescendo, precisaria melhorar sua capacidade de liderança.

 

Assetz: Agora, na Sabesp, líder novo…  equipe nova? Como está a formação do seu time? Você participa ativamente da seleção?

Szlak: A Sabesp vive um momento de grande transformação. Deixar de ser uma companhia estatal e migrar para o modelo privado naturalmente torna as coisas diferentes.

A empresa produz muito conhecimento, além de ter profissionais excepcionalmente qualificados, que continuaram com a gente após a migração e estão tendo espaço para crescer e se desenvolver. Ao mesmo tempo, vimos a necessidade de trazer novos colaboradores.

Enquanto companhia estatal, a Sabesp apresenta uma porção de restrições e amarras que precisamos desfazer, e as pessoas que já estavam aqui não necessariamente saberão operar sob essa nova condição. Nesse contexto, o mix de perfis é fundamental.

Temos cuidado e carinho para manter o que é bom na companhia — e tem muita coisa boa por aqui! Por isso, estou me envolvendo bastante nas contratações, especialmente em relação aos meus liderados diretos e aqueles logo abaixo deles. Tomei muito cuidado para escolher peças que se encaixariam bem com a companhia e com o desafio.

 

Assetz: E com relação a outros níveis hierárquicos, como você atua?

Szlak: Em relação aos demais, o envolvimento é pontual e inclui planos longos de desenvolvimento, como programas de estágio, por exemplo. Eu não me envolvo profundamente em todas as etapas, mas ajudo a definir o tipo de perfil que estamos buscando.

 

Assetz: Houve algum choque de cultura com as equipes remanescentes da fase anterior da empresa, considerando que você veio do setor privado e eles têm a experiência de uma empresa com histórico de controle estatal?

Szlak: No Grupo 3G (antigo acionista majoritário da Kraft Heinz), a cultura era um pilar central. No caso da Sabesp, a empresa sempre operou de maneira muito descentralizada, o que fazia com que não houvesse necessariamente uma cultura única. Mas havia traços culturais comuns em toda a operação e estamos trabalhando para identificá-los e potencializá-los.

Por exemplo, me surpreendi positivamente com o senso de urgência da companhia, muito voltado a resolver o problema do cliente na ponta, o que é muito legal e estimula um sentimento de dono. As pessoas têm um propósito dentro da empresa: levar água, esgoto e qualidade de vida para a população. Fornecemos um serviço essencial, e as pessoas aqui entendem essa responsabilidade. Isso está muito claro.

 

Assetz: Na Sabesp, mudou muito o perfil de profissional que você considera ideal para trabalhar com você em comparação à Kraft Heinz, por exemplo?

Szlak: Diferentes negócios, diferentes conhecimentos e qualidades. Naturalmente, ter conhecimento técnico de um negócio regulado como o nosso é um diferencial, porque encurta a fase de aprendizado. Por outro lado, trabalhar com profissionais que têm apenas esse perfil não propicia o desenvolvimento de novas ideias. Por isso, procuramos incentivar a diversidade de experiências.

Na Kraft Heinz, eu também vivi fases de mudança de direção. A primeira etapa foi muito parecida com a que estamos vendo agora na Sabesp, focada em entender o negócio e melhorar a eficiência dos processos. Depois, houve uma etapa de ‘vamos tentar conquistar o mundo por meio de aquisições’. Houve ainda uma fase posterior, na qual procuramos entender como acelerar o crescimento orgânico. Em cada passo desse longo processo, tive a oportunidade de trabalhar com diferentes perfis de pessoas.

O perfil do profissional tem um pouco a ver com a cultura da empresa e também com o momento que a companhia está vivendo. O [Carlos] Piani (CEO da Sabesp) costuma dizer: “Eu não sou CEO, eu estou CEO”. Eu também não sou CFO, eu estou CFO, e espero que isso se reflita também nas equipes com as quais a gente trabalha.

 

Assetz: Como você se relaciona com os modelos de liderança? Tem algum de preferência? Com qual perfil de liderança você se identifica mais?

Szlak: Sempre tive dificuldade de criar rótulos. Então, prefiro compartilhar minhas crenças pessoais e o que eu procuro fazer. Tento ser pragmático, transparente e estar junto com o time. Não sou o tipo de executivo que fala “resolvam isso aí” e vai embora. Tento pensar como posso ajudar, quais soluções eu posso oferecer. Nunca vou pedir para o meu time fazer uma coisa que eu não faria.

Também acredito que todos devem ser submetidos às mesmas políticas, diretor ou não. Por exemplo, discordo que a empresa tenha uma política de custos diferente para mim, como em estadias em hotéis e passagens aéreas. Embora essa diferenciação seja comum em muitas companhias, não estou acostumado e não gosto de trabalhar dessa maneira.

Outro ponto é que me considero supercurioso, então acabo fazendo muitas perguntas. Além disso, me esforço bastante para praticar a escuta ativa.

 

Assetz: Em outra entrevista para a Assetz, você mencionou que chegou a enfrentar xenofobia e preconceitos relacionados à idade no exterior. Como lidou com essa situação sem deixar que afetasse o seu desempenho?

Szlak: Sim. Isso foi logo quando cheguei aos Estados Unidos, quando a Heinz teve seu capital fechado pelo grupo 3G. À época, a sede era em Pittsburgh, e a primeira coisa que você via quando pousava no aeroporto era um banner escrito: Pittsburgh, the home of the Heinz ketchup [“Pittsburgh, o lar do ketchup Heinz”, em tradução livre]. Havia também o Heinz Field, o campo de futebol americano da cidade, e o Heinz Museum.

De repente, um grupo brasileiro compra esse símbolo americano. Então, talvez por eu ter sido um dos primeiros brasileiros a chegar lá e participar ativamente da mudança, nem todo mundo me recebeu bem. Para resolver, tive que demonstrar interesse genuíno nas pessoas e provar que não havia muita diferença entre nós.

 

Assetz: O que significa exatamente demonstrar interesse genuíno nas pessoas?

Szlak: Tento quebrar um pouco as distâncias e entender as motivações de cada um. Muitos executivos esquecem de perguntar algo simples a seus liderados: ‘Qual é o seu objetivo de vida?’. Pode ser que aquele colaborador queira apenas cumprir seu horário e depois ir ao ensaio de violino porque faz parte da orquestra sinfônica da cidade. Ele está ali para pagar as contas. E está tudo bem.

Não adianta forçar essa pessoa a participar de um projeto que exija aumentar a carga de trabalho, sendo que talvez tenha outro profissional cuja prioridade seja crescer mais rapidamente na carreira e tope o desafio. Isso sim, para mim, é meritocracia: tratar perfis diferentes de jeitos diferentes; é respeitar as habilidades e o tempo de desenvolvimento de cada um.

 

Assetz: Com sua experiência à frente das Finanças da Kraft Heinz nos Estados Unidos, quais dicas você  daria a executivos brasileiros que atuam ou gostariam de atuar no exterior?

Szlak: Tem que falar muito bem a língua do país no qual você quer trabalhar. Eu já vi muito executivo perdendo o respeito do time por não dominar o idioma. Também é necessário entender os costumes, a cultura local. Não adianta esperar os mesmos comportamentos em geografias diferentes. É preciso ter um pouco de sensibilidade cultural. Assim, naturalmente, o caminho fica mais fácil.

 

Assetz: Por fim, como tem sido a sua relação com os investidores da Sabesp, considerando que boa parte deles está no exterior?

Szlak: Estou acumulando muitas milhas. Tenho tentado ficar o mais próximo deles e, por isso, tenho feito muitas viagens. A Sabesp tem um perfil um pouco diferente da média do mercado de capital brasileiro. Sua representação no índice MSCI (Morgan Stanley Capital International) é maior do que a média brasileira.

Além disso, tirando os meus acionistas de referência, mais de 50% são estrangeiros e estão localizados principalmente entre Estados Unidos e Europa. É natural que a gente faça um trabalho muito forte de aproximação com eles. A companhia tem vários stakeholders, os meus, como diretor de Relação com Investidores, são os acionistas. Então, para eu ser o porta-voz deles, preciso entender suas expectativas, suas principais preocupações e os riscos que enxergam.